Domingos
Zamagna
jornalista e
professor de Filosofia
És
católico ou ortodoxo? Então tu me entendes. Mesmo se ainda não foras católico,
mas simplesmente cristão ou religioso, tu me entenderias também. Aliás, basta
que sejas um ser humano - nem precisas ser dos melhores - e tenho certeza que
me entenderás. Por quê? Porque quero falar-te de um homem igual a ti, absolutamente
igual a ti: o padre! A ele, porém, Deus confiou uma missão que o torna um homem
de especial significação.
Onde
encontrá-lo? Na rua, cada vez menos descobres a sua identidade. Uma pequena
cruz, um colarinho branco, num terno nem sempre bem cortado, enfim um discreto
sinal pelo qual reconheces que ali vai alguém em que podes confiar, haja o que
houver. Ele foi criteriosamente talhado para isso. Para estar próximo de quem
dele necessitar.
Houve
um tempo em que o padre era reconhecido por suas vestes extravagantes, certas
vezes até suntuosas. Esse tempo ficou para trás. Depois do aparecimento de
algumas vanguardas estéticas (grunge, beat, punk, gótico, tropicalismo etc.), a
extravagância foi sobejamente homogeneizada. O que conta é que os padres se
deixam cada vez mais impressionar pela frase de Jesus: "os que vestem
roupas empoladas vivem nos palácios dos reis" (Mt 11,8). Para quem os
conhece de fato, não pesa mais sobre eles a acusação de outrora, de que estavam
mais próximos dos poderosos. Dependendo do conhecimento que tens da cidade em
que vives, tu te surpreenderias ao ver alguns deles vestidos como o povo de
rua, debaixo de pontes, em favelas e cortiços ? Não é o hábito que faz o monge!
Onde
ele reside? Um padre maravilhoso, Vicente de Paulo, transmitiu no século XVI
estes ensinamentos cujo espírito tem servido de orientação para algumas
práticas eclesiais nos dias atuais: "Tereis por mosteiros as casas do
pobres; por cela, vosso quarto de aluguel; por capela, a igreja paroquial; por
claustro, as ruas da cidade; por clausura, a obediência; por véu, a santa
modéstia." É da mais genuína tradição da Igreja a opção preferencial pelos
pobres; nossos padres não só assumem a causa dos pobres, eles próprios são
pobres. Mas não se trata de uma pobreza ostensiva. Num mundo em que o que conta
são os bens materiais, o padre tem - quando muito - um apartamento modesto, um
carro comum. Dentro de casa, a TV só é ligada de caso pensado. Atualmente até
as TVs religiosas foram contaminadas por algumas tolices; por isso devem ser
vistas com parcimônia e suspicácia. Na época da estridência, o padre é um
cultor do silêncio. Sua geladeira não estoca iguarias. Bebidas? Só as
consentidas por sóbrias festas no recesso de um lar.
Que
mais tem em sua casa? Um computador, certamente, porque é um homem de comunicação.
O diálogo direto é imprescindível para o exercício do seu ministério, mas não
pode abrir mão desse instrumento moderno para se comunicar com o bairro, com a
cidade, com o país, com o mundo. Sua visão nunca é pequena, é cada vez mais
ampla. O povo às vezes se espanta, porque a casa do padre tem também livros,
muitos livros. Gastou boa parte da vida estudando. Mergulhou na história,
filosofia, sociologia, psicologia, antropologia, para conhecer a natureza dos
povos. Como conhecer a Deus sem conhecer o que é o ser humano, imagem de Deus?
Aprendeu
línguas, com especial atenção para o hebraico e o grego, às vezes com
dificuldades - quem sabe até com heroísmo! - para estudar os originais do
Antigo e do Novo Testamento, pois ali estão os fundamentos da Teologia e da
Espiritualidade, nas quais se debruçou por cinco anos na faculdade. Deve
dominar muito bem o nosso idioma. Por uma razão muito simples: se ele não
souber falar, ou escrever, como poderá ser entendido ?
Conheceu
todas as tradições e correntes de pensamento do Cristianismo. Certamente
afeiçoou-se mais com esse ou aquele pensador, o que lhe deu um feitio mais ou
menos conservador ou renovador. Em todo caso, tudo o que faz é fruto de idéias
amadurecidas, provadas, alicerçadas em valores. Porque
não é um homem da moda, dos que falam somente para agradar platéias, baliza a
sua vida pela oração dentro e fora do templo, pelos ensinamentos da Sagrada
Escritura, dos Santos Padres, dos Concílios. Obviamente, "mantendo-lhes o
nervo e a ságoma", como dizia Murilo Mendes.
Tu
te dás conta de quão difícil é, para um padre, cultivar a imperativa indignação
profética diante da injustiça e ao mesmo tempo ser um artesão da paz e um
arauto da misericórdia do Pai? De fato, o povo espera que o padre seja um irmão
e um pai, que saiba administrar bem a sua comunidade, mas sem ser um soba ou um
beleguim.
Talvez
tu saibas que os padres, nos primeiros séculos da era cristã, podiam constituir
família. Hoje isso só é possível na Ortodoxia, onde a Igreja Ortodoxa guardou a
tradição de ordenar padres a homens casados. O que provavelmente ouves falar
com freqüência, ou lês sobretudo nos jornais (ou livros superficiais) é uma
lista de motivos que nunca coincidem com a verdadeira razão de a Igreja Romana
assim como no monaquismo ortodoxo exigir de seus padres a opção pela vida
celibatária. Não se trata de conveniência, muito menos de menosprezo pelo
casamento. Já leste, certamente, que Pedro, foi casado (Mt 8,14). A prática e
sobretudo a qualidade da evangelização, contudo, passou a exigir dos
missionários uma identificação cada vez maior com um Cristo tão despojado que
renunciou até à constituição de uma família, para a consagração total ao Reino
e ao serviço ao povo. Nunca duvides da integridade de cada sacerdote, aliás
essa é até uma exigência para ser ordenado. Não aceites que te imponham uma
visão distorcida sobre uma realidade que traz a marca do sobrenatural. Se
souberes o que é a renúncia a um amor individual para abrir-se - generosa,
equilibrada e alegremente - para um amor universal, unicamente por causa do
Evangelho, saberás apreciar a razão pela qual a Igreja - a despeito de todas as
dificuldades e até das defecções - insiste para que o padre canalize todas as
energias da sua vida intelectual e afetiva para o serviço do Reino de Deus, do
qual a Igreja é sinal na vida presente.
Se
tens fome desse Reino, se não te deixas bafejar ou demover por qualquer
religião recém inventada, se deixas que Deus inspire verdadeiramente a tua
vida, então sabes onde encontrar quem foi escolhido pelo nosso Salvador para
estar a teu serviço na fé. Do padre ouvirás, com reverência e competência, a
pregação da Palavra imorredoura, dele receberás na fronte a água do
renascimento, a unção do Espírito que te prepara para o combate espiritual, o
perdão de tudo o que te afasta do bem, a bênção sobre o teu compromisso de amor
por um(a) companheiro(a) de vida e a educação de teus filhos, o viático para
enfrentares a derradeira luta, antes que entres no gáudio do teu Senhor.
E
se, no decurso dessa vida de alegrias e esperanças, mas onde não há homem que
desconheça a dimensão da cruz, necessitares de um alimento que te robusteça a
caminhada, saiba que Nosso Senhor concedeu a alguns, alguns que são como nós,
saídos do meio do povo, mas aos quais reservou um privilégio jamais conferido
sequer aos anjos do céu, é das mãos do padre que receberás o pão e o vinho que
selam uma aliança nova, tornados Corpo e Sangue de Cristo, pelos quais
antegozas a alegria de uma união que jamais terá fim.

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