Psaltis - A Rádio que toca a Ortodoxia

sábado, 6 de dezembro de 2008

"Economia, Ética e Globalização – a visão de um padre ortodoxo"

O mundo está integrando-se a uma velocidade muito elevada. As razões para essa integração estão nas melhorias tecnológicas nas áreas de informática, comunicação e transportes, avanços políticos importantes, fim da guerra fria e uma compreensão maior das vantagens da abertura econômica entre os países. Em meio a esse turbilhão de transformações, encontra-se a Igreja de Cristo, os cristãos ortodoxos e a sua teologia, que sugere caminhos para a manutenção dos princípios éticos de uma sociedade globalizada.

A globalização vem certamente contribuindo para uma melhoria do padrão de vida em escala mundial, embora tenha conseqüências perversas, como o aumento do desemprego estrutural em muitos países, com a desnacionalização do setor produtivo, principalmente em países emergentes, além da concentração da produção e mesmo do comércio em grandes empresas.

Urge nesse momento recuperar a noção cristã ortodoxa de partilha comunitária e solidária, e dar condições para que essa crescente massa dos “sem trabalho” tenha condições de se adaptarem ou ao menos conseguirem um emprego dentro de uma sociedade globalizada de economia transnacional.

A globalização como fenômeno econômico de um novo modo de lidar com o capital, relativiza a manutenção dos recursos naturais disponíveis na terra, para ela o único recurso válido é o cambial/monetário, por isso é fundamental que a sociedade aliada às lideranças religiosas locais e internacionais exija e consuma produtos de empresas que tenham uma clara e concreta política de responsabilidade social e desenvolvimento sustentável e que invistam parte de seu lucro na recuperação dos recursos naturais ora explorados, baseados numa ética de integralização da natureza com a demanda de consumo.

É certo que com a globalização, veio também o notável crescimento das tecnologias de informação. A difusão de novas tecnologias criou novos produtos e novas oportunidades mercantis e gerou maior eficiência produtiva e maiores condições de competitividade para aqueles que têm acesso à informação.

Como estas inovações tecnológicas está disponível apenas para alguns, que objetivamente tem a função de gerar lucro a elas, naturalmente estas tecnologias frutos de estudo e investimento, são utilizadas por um círculo restrito e seleto de empresários e mesmo de Estados desenvolvidos para alavancar uma maior competitividade. A contrapartida desse desenvolvimento restrito, é a exclusão digital de muitos que não tendo acesso a informação, logo não tem acesso às transformações criadas pela competitividade globalizada, levando-os ao empobrecendo paulatinamente.

Em outros casos, os excluídos do lucro digital, tem acesso a rede de informações, mas não como geradores de lucro, mas sim como consumidores subjetivos dos bens, produtos e serviços que são disponibilizados pelo grande conglomerados transnacionalizados.

È verdadeiro que o princípio neoliberal da gestão das informações agrega benefícios dos quais não teríamos o conforto do mundo moderno principalmente no que diz respeito à saúde e a facilitação à pesquisa, porém distorce referências que são fundamentais para o inter-relacionamento afetivo, social e comunitário, surgindo uma preocupante patologia psicossomática motivada pelo isolacionismo cibernético, ou seja, ao mesmo tempo que pela informação podemos nos comunicar com outros em qualquer ponto do planeta coberto por redes de wireless ou cabos de fibra ótica, ao mesmo tempo muitos enfermos da cibernética se distanciam das relações de proximidade com os que estão em seu entorno social, afetivo e comunitário.

Voltando ao assunto proposto por essa resenha, que é a relação do capital com a ética cristã, temos que o capital globalizado estimulado pela propaganda consumista varre a identidade cultural, de forma que antigas referências, como a família, a religião ou a comunidade são afetadas e deixam de cumprir as funções de outrora.

Em muitos lares a religião se tornou objeto de consumo, grande parte da população ligado a uma “soft religiosidade” a tratam ou a praticam na medida que necessitam para suprir suas necessidades pessoais imediatas. Por outro lado a religião que tem a função de agregar as pessoas instruindo-as para a paz, tem se tornado a força propulsora para a manifestação de radicalismos altamente violentos, motivados pela intolerância com o objetivo de sobrepor outras manifestações religiosas ou sociais tidas como inimigas. Isso tem por pano de fundo o capitalismo e a competitividade religiosa, visto que quando mais uma determinada religião agregar pessoas em torno de sua doutrina tornando-a internacionalizada, mais haverá capital humano para a sua manutenção fundamentalista.

É urgente a necessidade de retornarmos as raízes de nossa fé ortodoxa, que pode neste nosso tempo oferecer pistas de reflexão a partir de uma ótica inclusivista, solidária resgatando a partilha vivida na koinonia apostólica de Jerusalém, com o intento de reconstruir um mundo novo, que se baseie numa economia alternativa que visa recuperar a atual economia, que como o próprio nome diz, “é o cuidado da casa que nos pertence”. Esta deve ser colocada a serviço da necessidade de todos, focando o desenvolvimento político, socioeconômico e cultural a partir do povo e para o povo, que é o maior capital sócio-cultural da humanidade e real sujeito ativo de uma globalização pro populo.

in Ódos - Caminho para a Santificação
Padre Daniel de Oliveira Pinheiro
Igreja Ortodoxa Ucraniana
Patriarcado Ecumênico de Constantinopla

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Ouvindo com amor - A prática da confissão Ortodoxa

Todos sacerdotes ortodoxos são chamados ao ministério da escuta, e sempre devem estar atentos e motivados a não só aplicar, mas se deixar guiar pelas seguintes perspectivas qualitativas que na prática da confissão são a empatia, a aceitação e a genuinidade. Estas são essenciais para que esse ministério seja frutífero e seja uma benção, na vida daquele que está sendo ouvido, dentre estes, especialmente aqueles que estão afligidos por enfermidades.

A empatia é o atributo de saber ouvir de tal maneira, que o sacerdote deixa fluir naturalmente durante o atendimento, uma transparência tal, que a situação vivenciada pelo penitente seja vivenciado pelo confessor. Neste caso o penitente percebe o diferencial do acompanhamento confessional recebido com o retorno à sua estima perdida pelo brilho da Graça re-adquirida. O penitente se sente novamente elevado a um patamar de extrema importância humana e espiritual.

A aceitação se direciona em evitar a tentação de nos colocarmos como juiz da situação e emitir julgamentos conforme nossa compreensão da realidade, mesmo que estas não sejam aprovadas por nós.
A genuinidade não é somente uma habilidade de encarar a situação na confissão, mas sim a demonstração explícita de nossa honestidade no trato com o penitente. Essas qualidades descritas acima são manifestadas através do respeito e do desafio em saber escutar, tendo como modelo o próprio Jesus e os Santos Padres.

Dever ser claro para o sacerdote ortodoxo, que aqueles que nos procuram tem uma real necessidade de se sentirem acolhidos devido aos diversos estigmas enfrentados espiritualmente ou socialmente, seja em suas enfermidades físicas, ou mesmo em suas enfermidades morais que abalam a paz de sua alma (rancor, vingança, desespero, desunião, abandono familiar, injustiça, etc.), sendo assim, o confessor deve ter a sensibilidade de captar a profundidade com que estes estigmas está afligindo o penitente, e dar o remédio na medida certa.

O grande desafio é não difamar moralmente quem nos procura, mas fazer com que essa pessoa possa notar a inconsistência de seu comportamento, que foi o fato gerador do seu pecado e da angústia que o aflige, seja ela de qual grau for. É fazer o penitente compreender através de uma visualização holística e global, que o nosso objetivo em Cristo, é desejar a ele -- para o penitente-- o melhor para a sua pessoa, através da respeitabilidade, sem falsa piedade.

A pessoa ouvida em confissão goza de direitos invioláveis, que não podem ser negados ou descartados durante a ouvidoria sacramental. Esses direitos estão classificados em cinco dimensões, como se seguem: a dimensão de falar e ser ouvido em sua fala, o direito de emitir sua própria opinião e defender seu ponto de vista e o direito de silêncio, todos estes devem respeitados e fundamentados espiritualmente pelo penitente a partir da Fé Ortodoxa, de forma que não causará à nenhum desconforto o confessor e o penitente durante a confissão, porém, o direito crucial que muitas vezes nós confessores, por nosso zelo ignoramos por simples motivação conservacionista, é o direito de liberdade de expressão que o penitente tem em sua fé ortodoxa. Cabe a nós nestes casos orienta-lo para que está fé seja vivida e experenciada conforme os ensinamentos da Santa Igreja.

Verdade é, que em nosso entorno presbiteral lidamos constantemente com o sofrimento alheio, por isso devemos sempre renunciar nossas próprias opiniões e re-aprender a ouvir o mais íntimo de nosso ser para não emitirmos opiniões próprias infectadas de nossos preconceitos, causando confusão e mágoa no penitente. Isso de certo, atrapalharia o diálogo necessário para se estabelecer um vínculo de confiabilidade entre os protagonistas da confissão, pois o objetivo que se deve desenrolar durante o atendimento da confissão é acompanhar e orientar a pessoa que solicita este salutar sacramento encontrar novamente pela via da Graça de Deus recebida na absolvição, seu equilíbrio emocional que lhe dará condições de testemunhar o evangelho através da Fé Ortodoxa.

in Ódos - Caminho para Santificação
Padre Daniel de Oliveira Pinheiro
Igreja Ortodoxa Ucraniana
Patriarcado Ecumênico de Constantinopla

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

A ORAÇÃO

Cristãos ortodoxos habitualmente sentem a necessidade de levar uma vida de oração sincera e simples tendo como parâmetro os serviços oferecidos pela sua igreja paroquial. Nesse espaço físico de adoração cantamos os ofícios da Igreja tantas vezes quanto nos é possível, e vamos confrontando estes momentos de oração com nossas dificuldades e necessidades espirituais e temporais.

Atentamente assistimos os divinos serviços com ardente fervor do nosso coração, quando participamos da Liturgia como se fosse à única oportunidade dada por Deus a nossa vida de ver com nossos olhos o Céu sobre a terra, com alegria, recolhimento e piedade

Descobrir a oração presente Palavra de Deus que é proclamada através da Liturgia e dos diversos serviços da Igreja, é o escopo de nossa missão, mas sem falsa piedade, sabemos que vivê-la não é algo fácil em nossos dias, por isso em contrapartida as nossas limitações, devemos crer que a Palavra Divina nos encaminha e nos molda quando é lida e ouvida com ardente desejo de torná-la oração.

Reflitamos com Ela a cada dia, no meio das nossas vitórias ou de nossos fracassos; façamos da leitura orante da Palavra de Deus, uma verdadeira devoção diária, testemunhando assim nossa Fé irredutível em suas promessas, transformemos a Sabedoria retirada desta límpida Fonte, em atos concretos realizados pela Igreja em meio ao mundo.

Seremos com certeza um tijolo a mais na construção do Reino de Deus numa sociedade ocidental anticristã e excludente.

A oração é, para nós cristãos ortodoxos, a única forma de nos entregarmos totalmente a nosso Senhor, pois sem este método, não teria sentido na Ortodoxia a Sagrada Eucaristia, a ascese (jejum e mortificação), a contemplação da Deídade, a confissão habitual dos nossos pecados, o kombuskini, os molébens e as panahidas e tudo o mais que faz parte da espiritualidade e da vida eclesial de nossa Igreja.

Chegamos à conclusão que a oração feita com pureza de coração nos transporta como missionários a qualquer lugar, com Ela a nossa alma é tranportada às missões da África, em peregrinação ao túmulo vazio ou percorremos o caminho ao Golgotá na Terra Santa, chegamos aos monastérios de Meterora ou do Monte Sinai, enfim, descobrimos os lugares que estão ocultos aos olhos humanos e intercedemos junto aos santos de Deus a benção ideal aonde ressoa as mais íntimas necessidades de nossa cidade ou país, ambientes que não podemos estar sempre presentes, mas cremos firmemente que a nossa oração a todos estes alcança.

Ela também nos remete a uma vida útil em nossa Igreja, pois a oração são gestos invisíveis para atos visíveis. Com Ela nos transformamos em agentes ocultos a serviço do Reino de Deus, e nos deleitamos com o serviço prestado a quem é verdadeiramente necessitado, como por exemplo os pobres e enfermos. Ela também nos encoraja a abraçar sinceramente os que estão injustamente presos e também aqueles que se arrependeram de uma vida pregressa de transgressões e querem retornar ao caminho do bem, em suma, transformando-nos tudo para todos.

A oração como diziam os santos na antiguidade “ no remete ao mais alto cume da perfeição”. É neste exercício diário que crescermos em nosso afeto para com Deus e participamos de sua ternura.

O cristão ortodoxo deve ter prazer em rezar todos os dias as orações comuns de sua fé, venerar os santos ícones, conversar e se prostrar diante de Jesus, não com muitas palavras, mas sim com muita súplicas, afetos, gemidos e lágrimas.

Qual cristão ortodoxo que orando sinceramente com o coração não se deixa banhar pelas lágrimas que brotam de suas entranhas, “mesmo que estas lágrimas sejam discretas”, e não sente um aperto de emoção no peito quando se esta diante do seu amado Senhor na certeza de estar sintonizado com a promessa da Palavra de Deus, que é vida em abundância para todos?

Insisto a tempo e a destempo, que seguramente pela oração estamos nos entregando totalmente ao Senhor. Na ousadia da oração imitamos a santidade D'aquele que passava noites inteiras em oração e orava demoradamente, dando-nos assim o exemplo a ser seguido. Os gestos concretos que brotam da oração tornanos a cada dia, dignos e agradáveis ao Senhor.
in Ódos - Caminho para Santificação
Padre Daniel de Oliveira Pinheiro
Igreja Ortodoxa Ucraniana
Patriarcado Ecumênico de Constantinopla

sábado, 11 de outubro de 2008

Decisão inicial e perseverança

Se queres salvar tua alma e conseguir a vida eterna, sacode o teu torpor, faz o sinal da cruz e diz: "Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém."

Não se obtém a fé pela reflexão, mas pela ação. Não são as palavras e a especulação que nos ensinam quem é Deus, mas a experiência. Para deixar entrar o ar fresco, é preciso abrir a janela; para bronzear a pele, é preciso expor-se ao sol. Para adquirir a fé, é a mesma coisa; como dizem os santos Padres, não se chega ao objetivo, permanecendo confortavelmente sentado, esperando. Imitemos o filho pródigo: "Partiu, então, e foi ter com o pai" (Lc 15:20).

Qualquer que seja o peso e o número de cadeias que te acorrentam à terra, nunca é tarde demais. Não é sem motivo que está escrito que Abraão tinha setenta e cinco anos quando partiu; e os operários da undécima hora receberam o mesmo salário que os que trabalharam desde a manhã.

E também, nunca é excessivamente cedo. Nunca é cedo demais para apagar um incêndio na floresta. Gostarias de ver tua alma devastada e queimada?

No batismo, recebeste a ordem de te lançares num combate invisível contra os inimigos da tua alma. Põe mãos à obra. Há bastante tempo, usas de subterfúgios. Mergulhado na negligência e na preguiça, desperdiçastes um tempo precioso. Só te resta recomeçar do princípio, porque lamentavelmente deixastes que se empanasse a pureza que recebestes no batismo.

Começa, pois, a trabalhar desde já, sem demora. Não adies a tua decisão para hoje à noite, para amanhã, para mais tarde, "quando eu tiver terminado o que preciso fazer agora." Um atraso pode ser fatal.

Não; é agora, no mesmo instante de tomar a decisão, que deves mostrar pelos teus atos, que te despedistes do teu velho "eu" e que acabas de começar uma vida nova, à procura de um novo objetivo, seguindo novos caminhos. Levanta-te, pois, corajosamente, e diz: "Senhor, concedei-me que comece agora. Ajudai-me!" Porque, acima de tudo, tens necessidade da ajuda de Deus.

Persevera em tua decisão, e não olhes para trás. Que o exemplo da mulher de Ló te sirva de lição: ela se trasformou em coluna de sal, por ter olhado para trás (cf. Gn 19:26). Abandonastes o homem velho: não retomes o que é desprezível. Como Abraão, ouviste a voz do Senhor que te disse: "Deixa teu país, tua parentela e a casa de teu pai, para o país que te mostrarei" (Gn 12:1).

De agora em diante, é nesse país que se deve concentrar toda a tua atenção.

in Caminho dos Ascetas
Iniciação à vida espiritual
Tito Colliander

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

INTRODUÇÃO À DIVINA LITURGIA DE NICOLAS CABASILLAS

"Interpretação da Divina Liturgia",

traduzido da versão latina do volume CL da Patrologia Grega de Migne

A obra e o efeito da santa celebração dos sagrados mistérios é a transformação dos dons no divino corpo e sangue.


O fim é, por meio deles, a santificação dos fiéis, recebendo o perdão dos pecados e a herança do reino dos céus.

A preparação é o que se ordena a esta obra e a este fim, isto é, as preces, a salmodia e as leituras das Sagradas Escrituras. Para dizê-lo em uma só palavra, tudo o que antes e depois dos dons é sacrossantamente dito e feito.

Deus nos prodigaliza gratuitamente tudo o que é santo. Sendo tudo efetivamente dom da graça, nós a Ele nada lhe damos. Todavia, para que sejamos capazes de receber e conservar estes dons, há algo que se requer necessariamente de nós. Deus não concede, de fato, a santificação senão àqueles que a buscam e que a ela se dispõem. É assim que Ele nos batiza, nos unge, nos acolhe em seu convívio e nos reparte a sua sagrada mesa, o que podemos entendê-lo também através da parábola do semeador. Nela, efetivamente, lemos que:
"o semeador saiu a semear".
Note-se que a Escritura não diz que o semeador saiu para arar a terra, mas para semear, pois tanto o arado como toda a preparação deve ser realizada por nós. Assim também se faz necessário para a recepção dos Sacramentos. Os que deles se aproximam devem estar retamente preparados. Convém, portanto, que na própria constituição do Santo Sacrifício esteja presente esta preparação, como de fato está. As preces, os salmos, e tudo o que nele sacrossantamente se faz e se diz têm sobre nós este poder.

Todas estas coisas nos santificam e nos dispõem, em parte para que recebamos corretamente os Sacramentos, em parte para que conservemos a santificação recebida e possamos retê-la com perseverança.

Na liturgia, porém, esta santificação ocorre de dois modos. Em primeiro lugar, quando somos ajudados pelas próprias preces, salmos e leituras. As preces convertem a Deus e alcançam o perdão dos pecados. A salmodia, semelhantemente, faz com que Deus nos seja propício e no-lo atrai com seu poder, conforme no-lo declara o próprio Salmo, ao dizer:

"Sacrifica a Deus um sacrifício de louvor,

e eu te libertarei, e tu me glorificarás".


Quanto às leituras das Sagradas Escrituras, anunciando a benignidade divina e a sua humanidade, introduzindo em nossas almas a sua justiça, o seu julgamento e o seu temor, inflamando-nos em seu amor, nos trazem a alegria da alma e uma grande prontidão à obediência dos seus mandamentos.

Tudo isto torna mais bela e mais divina a alma tanto do sacerdote como do povo, e torna-os aptos a receber e a conservar a santificação que é a finalidade do sacrifício. Preparam particular e individualmente ao sacerdote, ao qual cabe o múnus de celebrar o mistério, para que não se aproxime indignamente à celebração do sacrifício.

Vemos, de fato, que em muitas passagens das orações litúrgicas recomenda-se ao sacerdote que não se aproxime do sacrifício com propósitos indignos, mas que se aplique aos mistérios com as mãos, a alma e a língua puras, de tal maneira que todos nós, pelo poder das palavras que são proferidas e cantadas, sejamos auxiliados a celebrar o sagrado.

Em segundo lugar somos santificados por estas coisas e por todas as coisas as demais que se realizam neste sacrifício quando nelas vemos a figura de Cristo e das coisas que Ele fêz e sofreu por nós. Significa-se, de fato, em toda a sagrada celebração, nos salmos, nas leituras e em tudo o que é feito pelo sacerdote, a economia do recebimento de nossa natureza humana pelo Salvador.

Tudo isto, ademais, é significado de tal modo que o que foi primeiro na vida do Salvador é significado pelo que no sacrifício também é primeiro; o que lhe é seguinte, por aquilo que no sacrifício é seguintes; e o que lhe é posterior, por aquilo que no sacrifício também lhe é posterior, ainda que aqueles que vêem estas coisas tenham a todas diante dos olhos.

Assim, a santificação dos dons, o próprio sacrifício, anuncia a morte, a ressurreição e a ascensão de Cristo, já que estes dons preciosos se transformam no próprio corpo do Senhor, ao qual sucederam todas estas coisas, sendo crucificado, ressuscitando e ascendendo aos céus.

O que é dito e feito antes do sacrifício anuncia o que se realizou antes de sua morte, isto é, seu advento e sua perfeita manifestação. Já o que vem depois do sacrifício anuncia, como Ele mesmo o diz, a promessa do Pai, a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos e, por meio deles, a conversão e a comunhão dos gentios a Deus. E toda a celebração do mistério é como uma só imagem do único corpo do povo do Salvador, tornado visível pela ordem e conveniência entre si.

Alguns salmos, como os que se cantam nos proêmios, e também os que na proposição dos dons são ditos antes deles, significam o primeiro tempo da economia de Cristo. O que está situado depois dos salmos, como as leituras das Sagradas Escrituras, significa o que se lhe sucede.

Diverso é o uso das leituras e dos salmos. As leituras nos incentivam à virtude, os salmos nos tornam Deus propício. Nada proíbe, porém, que ambos possam a mesma coisa, isto é, que incentivem os fiéis à vida das virtudes e signifiquem a economia e a dispensação de Cristo na carne. A roupa do que a veste cumpre um determinado uso e cobre o corpo, mas por ser tal ou qual algumas vezes significa também a arte, a vida e a dignidade daquele que a veste.

Assim também ocorre na liturgia. As Divinas Escrituras contêm palavras divinamente inspiradas e hinos de Deus; exortando-nos à virtude, santificam os que as lêem e as cantam.

No entanto, por terem sido escolhidas tais e terem sido ordenados de um determinado modo, elas podem também significar a peregrinação de Cristo e sua instituição. Tudo isto, ademais, não ocorre apenas com o que é cultuado ou lido, mas também com tudo o restante do que é realizado na celebração.

Cada uma destas coisas é feita em primeiro lugar por causa do uso presente; significam também, no entanto, algo das obras, ações ou sofrimentos de Cristo. O oferecimento do Evangelho no altar e a oblação dos preciosos dons são feitos, em primeiro lugar, conforme o seu uso o pede; a primeira para que o Evangelho seja lido e a segunda para que se ofereça o sacrifício. Ambas, porém, também significam a exibição e a manifestação do Salvador; a primeira, a sua manifestação inicial, obscura e ainda imperfeita, e a segunda, a sua manifestação perfeitíssima e última.

Entre as coisas que se realizam há também algumas que não cumprem nenhum uso, sendo feitas apenas para significar alguma outra coisa, assim como a punção do pão, a inscrição da cruz sobre o mesmo, e o próprio ferro, que o punge, feito sob a forma de lança. Este é também o caso da imersão da água nas santas oferendas.

Na realidade, em todos os demais sacramentos encontram-se coisas semelhantes. No Batismo retiram-se as vestes e os sapatos dos que devem ser batizados; a seguir estes, olhando para o Ocidente, estendem as mãos e sopram. Estas coisas, porém, lhes ensinam o quanto é necessário haver em nós o ódio ao maligno e como aquele que há de se tornar um verdadeiro cristão tem necessidade de se vigiar a si mesmo é necessário vigiar a si mesmo.

E se nos demais sacramentos encontram-se coisas semelhantes, outra será a sua significação. O que se realiza, porém, na celebração do mistério dos dons, se refere tudo à economia da carne assumida do Salvador para que, submetendo a sua contemplação aos nossos olhos, santifique as almas e nos torne aptos ao recebimento dos sagrados dons.

Deus outrora criou a terra do nada para tornar mais bela e divina a alma dos que a contemplam. Muito mais criou Deus agora uma inumerável multidão de outras coisas para que fossem por nós consideradas e cridas as coisas que Ele nos ordenou. Ele, efetivamente, não poderia salvar-nos e tornar-nos seus se as coisas pelas quais devêssemos ser salvos nos tivessem ficado escondidas.

Assim, Deus primeiro criou na alma dos homens, sem que antes estas coisas tivessem existido, a reverência, a fé e o amor a Cristo; depois, estando tudo isto já cuidadosamente meditado por aqueles que crêem, Deus já não as cria mais. Já cridas, as conserva, renova e aumenta, tornando os homens mais firmes na fé e mais fervorosos na piedade e na caridade.

Se, não existindo estas coisas, pôde Deus criá-las para que existissem, muito mais facilmente poderá conservá- las, guardá-las e renová-las. Ora, estas coisas são precisamente aquelas com as quais importa que nos aproximemos do que é sagrado, e sem as quais é completamente nefando que o contemplemos.

Referimo-nos à religião, a fé e a um amor a Deus muitíssimo veemente. Tão importantes são estas coisas que importava que a contemplação que no- las pudesse inserir fosse significada na constituição deste sacrifício. Deus assim quis que não apenas pela mente, mas também de certo modo pelos olhos, víssemos a grande pobreza de Cristo que de fato era rico; a sua peregrinação, não obstante possuir todos os lugares; as injúrias que sofreu, não obstante ser bendito; seus sofrimentos, apesar de ser impassível; quanto ódio recebeu, não obstante tanto ter amado, e quanto se humilhou a si mesmo, não obstante o tanto que era.

Cristo, de fato, com tudo isto que sofreu e realizou preparou diante de nós esta mesa, e nós, admirando a novidade da salvação, tomados pelo assombro da multidão de suas misericórdias, reverenciamos àquele que assim se compadeceu e que assim nos salvou.

Confiemos-lhe nossa alma e nossa vida, abrasemos nosso coração no fogo de seu amor, e se tais formos, poderemos com segurança e familiaridade embrenharmo-nos no fogo de seus mistérios.

Não é suficiente, para que assim nos tornemos, que tenhamos aprendido alguma vez as coisas que são de Cristo ou que delas tenhamos notícia. É necessário também que as cravemos nos olhos da alma para que as possamos contemplar em ato, expulsos todos os demais pensamentos, de tal maneira que lhe possamos entregar uma alma convenientemente preparada para receber esta santificação.

Se tivermos alguma razão de piedade, tanta que de tudo o que nos for perguntado possamos responder corretamente, mas tão pouca que quando for necessário mergulhar nos mistérios não consideremos tudo retamente nem nos utilizemos da mente, para nós nenhuma será a utilidade daquele conhecimento. Nenhuma das coisas que então nos forem ditas poderá mudar nossos afetos; continuaremos afeiçoados aos pensamentos que nos detém e teremos apenas os afetos que estes poderão produzir.

Tudo isto levou a que fosse arquitetada esta figura, em parte não apenas significando pelas palavras, mas a tudo também conduzindo sob o olhar, em parte manifestando-se por todo o tempo do sacrifício, para que podesse agir mais facilmente nas almas, e não infundisse nelas apenas a contemplação, mas também o afeto e a paixão, na medida em que estas coisas nos fossem impressas de modo mais evidente pelos olhos do que pela imaginação.

Pelos olhos, de fato, não se dá lugar ao esquecimento, nem se permite que o pensamento se dirija a outro até que tenha sido trazido à própria mesa, de tal modo que, refeitos por estes pensamentos e possuídos por uma forte memória, nos tornemos participantes dos sagrados mistérios, trazendo santificação à santificação, contemplação à santificação, santificação ao mistério e, transformados de glória em glória, alcancemos, partindo do que é menor, aquilo que é de tudo o maior.

Eis, compendiosamente, todo o sacrifício. Devemos, porém, a seguir, tratar individualmente de cada uma de suas partes, começando pelo seu início.

Consideraremos primeiro as preces que se fazem no início, as bênçãos sagradas, os cânticos sagrados, e as leituras. Consideraremos depois a própria obra sagrada, o próprio sacrifício. Em seguida a santificação pela qual, através dele são santificadas as almas dos cristãos, tanto dos vivos como dos mortos. Consideraremos, finalmente, se algo ainda necessitar de consideração e contemplação, as coisas que se lhe seguem, os cânticos e as preces dirigidas a Deus pelo povo e pelo sacerdote.

Antes de tudo, porém, e em todas as coisas nas quais se manifesta a economia da carne assumida pelo Salvador por toda a celebração do mistério, consideraremos o que a ela pertence e por quais das coisas que se realizam na sagrada celebração são significadas.

Nicolas Cabasillas nasceu em 1320 na cidade de Tessalônica, na Grécia, e faleceu em 1390. Autor da `Interpretação da Divina Liturgia', obra em que comenta o sacrifício da Liturgia segundo o rito de São João Crisóstomo, é um dos principais teólogos da história da Igreja Ortodoxa. Suas obras estão reunidas no volume CL da Patrologia Grega de Migne.

domingo, 5 de outubro de 2008

Os poderes demoníacos no Antigo Testamento

O Antigo Testamento praticamente desconhece a origem de uma força paralela ao poder de Javé. Muitas figuras e manifestações do mal no Antigo Testamento muitas vezes são atribuídas a Deus, de onde provém todo bem, assim como o mal em sua cólera.

Sendo os demônios um fenômeno universal em todas as culturas religiosas, Israel acabou por absorver em sua literatura bíblica figuras míticas de outras nações que se converteram em traços demoníacos de Deus.

Há diversos episódios bíblicos do Antigo Testamento, que hoje, são instrumentos de estudo aprofundado e científico da exegese bíblica, levando em consideração a inserção da cultura de outros povos na formação da escrituras israelitas contextualizando a ação de Deus. Partindo desse pressuposto a moderna exegética objetiva o mapeamento destas diversas culturas que estavam no entorno do povo israelita, onde claramente, como disse acima, identificamos claramente essa absorção cultural/religiosa.

Ao longo dessa formação, muitas figuras e manifestações demoníacas do Antigo Testamento tomaram uma nova roupagem, e foram re-escritas pelo autor bíblico com um pano de fundo diferenciado de sua função original, isto é, no caso dos deuses e demônios de outras culturas, estas passaram a ter uma funcionalidade pró-Javista na História da Salvação.

O autor bíblico tem por objetivo esclarecer as manifestações demoníacas do Antigo Testamento numa perspectiva de FÉ exclusivista em Javé.

Sua tônica, como disse acima, é esclarecer ao leitor que em Javé se converge todo o poder, domínio e soberania e não existe nenhum poder paralelo ao poder de Javé, pois na culltura vetero-testamentária o BEM provém Dele, assim com o mal.

O mal, quando se manifesta, é a demonstração explícita de seu zelo pelo negação do bem, negação essa, obviamente do povo israelita, que pelo uso errôneo da liberalidade humana e rebeldia, deve arcar com a cólera de Deus.

Outras vezes, o autor bíblico em tom de deboche, demoniza as divindades de outros povos a favor da monolatria exclusiva à Javé, e as coloca numa perspectiva de inferioridade tal, que a própria cultura e história desse povo debochado acaba por ser subordinada a cultura israelita em formação.

Isso tanto é verossímil, porque as religiões de outros povos que viviam no entorno de Israel, aos poucos foram destruídas e sobraram somente rastros dela, para o nosso posterior estudo.

Como a figura do diabo e seus anjos tornaram-se moda nas novas fenomenologias religiosas, sejam estas cristãs ou não cristãs, aprofundar no estudo da demonologia a partir da cultura bíblica do Antigo Testamento, (longe de ser um estudo frágil, por causa das dificuldades de uma comprovação sistemática), temos a certeza de que o diabo não está presente em nosso meio eclesial, mas “presente no mundo que foi criado para ele", citado exaustivamente por diversos estudiosos bíblicos.

A certeza histórica/exegética que temos, é que ao longo do tempo, os escritores vétero-testamentários agregaram informações colhidas de outras culturas, que se tornaram paralelas na ilustração da História da Salvação. Os autores bíblicos souberam magistralmente usar as figuras “demoníacas” para reforçar a verdade de que Deus é Único, portanto Único a ser servido.

As conclusões que devemos tirar para nós, cristãos ortodoxos, protagonistas do ensino bíblico através da vida, do ministério ordenado ou não, deve partir desta motivação e conhecimento, livre de qualquer elemento mítico que cria uma teologia surreal e tendenciosa.

Padre Daniel de Oliveira Pinheiro
Igreja Ortodoxa Ucraniana
Patriarcado Ecumênico de Constantinopla