Psaltis - A Rádio que toca a Ortodoxia

domingo, 5 de outubro de 2008

Os poderes demoníacos no Antigo Testamento

O Antigo Testamento praticamente desconhece a origem de uma força paralela ao poder de Javé. Muitas figuras e manifestações do mal no Antigo Testamento muitas vezes são atribuídas a Deus, de onde provém todo bem, assim como o mal em sua cólera.

Sendo os demônios um fenômeno universal em todas as culturas religiosas, Israel acabou por absorver em sua literatura bíblica figuras míticas de outras nações que se converteram em traços demoníacos de Deus.

Há diversos episódios bíblicos do Antigo Testamento, que hoje, são instrumentos de estudo aprofundado e científico da exegese bíblica, levando em consideração a inserção da cultura de outros povos na formação da escrituras israelitas contextualizando a ação de Deus. Partindo desse pressuposto a moderna exegética objetiva o mapeamento destas diversas culturas que estavam no entorno do povo israelita, onde claramente, como disse acima, identificamos claramente essa absorção cultural/religiosa.

Ao longo dessa formação, muitas figuras e manifestações demoníacas do Antigo Testamento tomaram uma nova roupagem, e foram re-escritas pelo autor bíblico com um pano de fundo diferenciado de sua função original, isto é, no caso dos deuses e demônios de outras culturas, estas passaram a ter uma funcionalidade pró-Javista na História da Salvação.

O autor bíblico tem por objetivo esclarecer as manifestações demoníacas do Antigo Testamento numa perspectiva de exclusivista em Javé.

Sua tônica, como disse acima, é esclarecer ao leitor que em Javé se converge todo o poder, domínio e soberania e não existe nenhum poder paralelo ao poder de Javé, pois na culltura vetero-testamentária o BEM provém Dele, assim com o mal.

O mal, quando se manifesta, é a demonstração explícita de seu zelo pelo negação do bem, negação essa, obviamente do povo israelita, que pelo uso errôneo da liberalidade humana e rebeldia, deve arcar com a cólera de Deus.

Outras vezes, o autor bíblico em tom de deboche, demoniza as divindades de outros povos a favor da monolatria exclusiva à Javé, e as coloca numa perspectiva de inferioridade tal, que a própria cultura e história desse povo debochado acaba por ser subordinada a cultura israelita em formação.

Isso tanto é verossímil, porque as religiões de outros povos que viviam no entorno de Israel, aos poucos foram destruídas e sobraram somente rastros dela, para o nosso posterior estudo.

Como a figura do diabo e seus anjos tornaram-se moda nas novas fenomenologias religiosas, sejam estas cristãs ou não cristãs, aprofundar no estudo da demonologia a partir da cultura bíblica do Antigo Testamento, (longe de ser um estudo frágil, por causa das dificuldades de uma comprovação sistemática), temos a certeza de que o diabo não está presente em nosso meio eclesial, mas “presente no mundo que foi criado para ele", citado exaustivamente por diversos estudiosos bíblicos.

A certeza histórica/exegética que temos, é que ao longo do tempo, os escritores vétero-testamentários agregaram informações colhidas de outras culturas, que se tornaram paralelas na ilustração da História da Salvação. Os autores bíblicos souberam magistralmente usar as figuras “demoníacas” para reforçar a verdade de que Deus é Único, portanto Único a ser servido.

As conclusões que devemos tirar para nós, cristãos ortodoxos, protagonistas do ensino bíblico através da vida, do ministério ordenado ou não, deve partir desta motivação e conhecimento, livre de qualquer elemento mítico que cria uma teologia surreal e tendenciosa.

Padre Daniel de Oliveira Pinheiro
Igreja Ortodoxa Ucraniana
Patriarcado Ecumênico de Constantinopla



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