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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
AS ORIGENS DA FÉ EM JAVÉ, O DEUS DE ISRAEL
Padre Daniel de Oliveira Pinheiro
A base de formação do povo oriental na antiguidade estava marcado pela presença de divindades protetoras, que ora estava caminhando com o povo, ora estava auxiliando-o na luta contras os opressores de outras nações, ora estava os abençoando através da subsistência. Em meio a tudo isso inicia-se a tomada de consciência de determinado povo semita que hoje conhecemos como nação israelita.
Os elementos que se agregaram para a consolidação desta etnia social e especificamente religiosa que existe até os nosso dias, foram as suas particularidades teológicas. Inicialmente não eram considerados nominalmente como “povo de Israel” tal como hoje conhecemos, mas era um grupo nômade igual aos demais povos da época, filhos do seu tempo. As narrativas bíblicas informam que o Israel primitivo, inicialmente era um povo patriarcal, aonde o pai da tribo mantinha a influência social e religiosa sobre o clã, de forma que os membros deste clã cultuavam uma divindade protetora que posteriormente foi identificado com a divindade EL dos assírios babilônicos
Esse nominativo de Deus, foi inserido ontologicamente na consciência nômade do antigo Israel, EL era antes de tudo um Deus solidário e pacífico que tolerava manifestações de outros grupos patriarcais que tinham também os seus deuses particulares. Nesta fase de gestação religiosa do antigo Israel, EL era Deus Pai dos demais deuses, e que sobretudo que caminhava ao lado de seu povo; era um Deus” peregrino que se identificava com a vida, ou melhor dizendo, estava intimamente interligado com o seu povo prometendo-lhe sempre um futuro próspero.
A partir da histórica evolução natural, este povo inicialmente nômade e peregrino que teologicamente tinha uma postura enoteísta, ou seja, tinha o seu Deus único em EL mas reconhecia as divindades de outros povos, visto que muito da cultura religiosa destes povos contribuíram para a formação religiosa do primeiro. Aos poucos, os hebreus deixam o nomadismo e se torna um povo que começa a viver e a se organizar numa sociedade rural/pré-urbana que se fixa em determinado local.
Guerras e conquistas era o passa-tempo dos líderes das nações da antiguidade que viviam no entorno da terra dos hebreus, e não tardou muito para que o povo de Israel, que gradativamente havia deixado a vida nômade dos pais num passado distante, e acostumados a vida pastoril que viviam, não se antecipou militarmente e de súbito assaltados pelos conquistadores se vê acuado e fragilizado perante as incursões militares de outros povos. Teve-se então neste período histórico o primeiro cativeiro dos hebreus, que anos após em meio à franca escravidão surge líderes carismáticos que engendram a libertação do povo, sempre evocando a divindade para proteção deste povo.
Deus se inclina do “alto de sua morada” vem em socorro do oprimido e interfere no curso de sua
história, dando provas de sua superioridade perante o poder político da nação opressora, sobretudo derrotando as divindades destes que culmina no êxodo rumo a terra prometida, promessa essa para um povo sem terra que vivia no exílio. Rumo a esta terra Deus caminha com seu povo junto ao deserto, o auxilia em todas as suas mazelas. Neste tempo o Deus EL dos pais manifesta aos líderes carismáticos o seu novo nome, eu sou IHWH. Na antiguidade revelar o nome, se deixar identificar, é o mesmo que dar a alguém ou ao povo a qual o nome foi revelado o direito da interagir e de partilhar da vida pessoal, no caso de Deus, o povo partilha da vida divina.Chega-se a uma fase culminante da formação deste povo, agora livre, próximo a alcançar “a terra prometida”, porém, devido ao longo cativeiro, fracionado socialmente em clãs que competem entre si. Precisam de novas diretrizes religiosas e sociais para que não se perca a identidade solidária conquistada no período de escravidão.
O Deus IHWH, que se revelou em diversos momentos na história deste povo, se manifesta na montanha do Sinai aonde o povo vai de encontro a Ele na busca de uma maior comunhão, de uma nova aliança. Recebe das mãos do líder carismático Moisés que conduziu o êxodo à primeira legislação escrita pelo próprio IHWH numa manifestação teofânica, e deixa claro qual é a vontade de IHWH para este povo, afim de que não venha novamente caírem num novo exílio e na escravidão.
As diferenças destas tradições expostas acima, num primeiro momento divergente, devido à periodização e o contexto histórico dos hebreus que evolui de uma organização primitiva a urbana encontram pontos fortes de convergência, porque o Deus deste povo sempre se manifestou de forma natural e paternalista, sempre demonstrou liberalidade diante dos limites naturais de seu povo, no entanto é um Deus que vai ao encontro daqueles que são seus através da comunhão.
Sintetizando minha compreensão acima com relação à História das origens dos Hebreus, tentarei em poucas linhas abaixo expor o que se pode entender por nacionalismo religioso que se manifesta de forma imprecatória contra os inimigos do monoteísmo Javista. A motivação de serviço e submissão a uma divindade sempre levou fiéis zelosos a desavenças políticas e religiosas que não poucas vezes culminava a disputas bélicas.
Deus era invocado para o sucesso das incursões bélicas, como Senhor dos exércitos, e quando se vencia uma batalha dedicada e em nome de Deus, todos os despojos de guerra eram consagrados a Deus, isto é, todo ser vivente e todo e qualquer objeto ou tesouro. Tem uma legislação específica de guerra aonde o hebreu guerreiro não podia se apropriar de nada do que fosse considerada uma guerra santa, pois a mesma era consagrada e combatida pelo próprio Deus, e sendo de Deus a vitória, tudo lhe pertencia.
Estudiosos chegaram a conclusões que nem sempre as Guerras Santas Israelitas eram de fato devotadas ao extermínio à moda de um sacrifício, estes estudos tem como pano de fundo tentar amenizar a imagem de um Deus que justifica a violência como forma de supremacia Divina contra um povo que não se submetia a sua vontade. Três escolas de estudiosos admitem três explicações, que infere do ponto de vista histórico, que engrandece os feitos do povo maximizando a extensão do extermínio da Guerra Santa, mas na realidade a mesma deve ter sido menos traumática do que a realidade, porém os relatos admitem a permissão de Deus ao derramamento de sangue.
Na dimensão psicológica dos relatos, os textos imprecatórios são explicados como meios de vazão emocional, pois quem reza pedindo a Deus vingança sobre os inimigos, transfere esta responsabilidade à esfera divina, não manchando as mãos com sangue. Levar a congregação a rezar contra os inimigos, era um meio de convencer, pois facilmente poderia surgir dentre os ouvintes e orantes um líder carismático quem se crendo imbuído do Espírito IHWH poderia facilmente passar os inimigos ao fio de espada justificando-se para isso a vontade de Deus. A outra dimensão que coloca Israel dentro do contexto de seu tempo afirma que Israel partilhava do “imaginário oriental” da época que inseriu em seus relatos sem nenhuma reflexão histórica, porém midráxica, costumes e relatos de outros povos que em sua raiz não era a fé de Israel.
Por fim, o nacionalismo exclusivista de Israel, apregoa que assim como os outros povos tinham os seus deuses, IHWH era o Deus do povo eleito, e quem era inimigo deste povo, consequentemente era inimigo de Deus, e IHWH como Senhor dos Exércitos vinha em socorro dos seus. Vincular Deus ao território que o adora era comum no Oriente.
A formação do povo Israelita do Antigo Testamento é totalmente mesclada com esta concepção de identificação nacional exclusivista, aonde o Deus IHWH dirige e governa de forma Teocrática os destinos de seu povo, através da benção, da prosperidade, mas sobretudo nos períodos de dificuldades enfrentados pelo povo, o próprio Deus combate a seu favor, tornando-se o Senhor da guerra numa ação divina que foge a nossa racionalidade empírica.
sábado, 6 de dezembro de 2008
"Economia, Ética e Globalização – a visão de um padre ortodoxo"
O mundo está integrando-se a uma velocidade muito elevada. As razões para essa integração estão nas melhorias tecnológicas nas áreas de informática, comunicação e transportes, avanços políticos importantes, fim da guerra fria e uma compreensão maior das vantagens da abertura econômica entre os países. Em meio a esse turbilhão de transformações, encontra-se a Igreja de Cristo, os cristãos ortodoxos e a sua teologia, que sugere caminhos para a manutenção dos princípios éticos de uma sociedade globalizada.A globalização vem certamente contribuindo para uma melhoria do padrão de vida em escala mundial, embora tenha conseqüências perversas, como o aumento do desemprego estrutural em muitos países, com a desnacionalização do setor produtivo, principalmente em países emergentes, além da concentração da produção e mesmo do comércio em grandes empresas.
Urge nesse momento recuperar a noção cristã ortodoxa de partilha comunitária e solidária, e dar condições para que essa crescente massa dos “sem trabalho” tenha condições de se adaptarem ou ao menos conseguirem um emprego dentro de uma sociedade globalizada de economia transnacional.
A globalização como fenômeno econômico de um novo modo de lidar com o capital, relativiza a manutenção dos recursos naturais disponíveis na terra, para ela o único recurso válido é o cambial/monetário, por isso é fundamental que a sociedade aliada às lideranças religiosas locais e internacionais exija e consuma produtos de empresas que tenham uma clara e concreta política de responsabilidade social e desenvolvimento sustentável e que invistam parte de seu lucro na recuperação dos recursos naturais ora explorados, baseados numa ética de integralização da natureza com a demanda de consumo.
É certo que com a globalização, veio também o notável crescimento das tecnologias de informação. A difusão de novas tecnologias criou novos produtos e novas oportunidades mercantis e gerou maior eficiência produtiva e maiores condições de competitividade para aqueles que têm acesso à informação.
Como estas inovações tecnológicas está disponível apenas para alguns, que objetivamente tem a função de gerar lucro a elas, naturalmente estas tecnologias frutos de estudo e investimento, são utilizadas por um círculo restrito e seleto de empresários e mesmo de Estados desenvolvidos para alavancar uma maior competitividade. A contrapartida desse desenvolvimento restrito, é a exclusão digital de muitos que não tendo acesso a informação, logo não tem acesso às transformações criadas pela competitividade globalizada, levando-os ao empobrecendo paulatinamente.
Em outros casos, os excluídos do lucro digital, tem acesso a rede de informações, mas não como geradores de lucro, mas sim como consumidores subjetivos dos bens, produtos e serviços que são disponibilizados pelo grande conglomerados transnacionalizados.
È verdadeiro que o princípio neoliberal da gestão das informações agrega benefícios dos quais não teríamos o conforto do mundo moderno principalmente no que diz respeito à saúde e a facilitação à pesquisa, porém distorce referências que são fundamentais para o inter-relacionamento afetivo, social e comunitário, surgindo uma preocupante patologia psicossomática motivada pelo isolacionismo cibernético, ou seja, ao mesmo tempo que pela informação podemos nos comunicar com outros em qualquer ponto do planeta coberto por redes de wireless ou cabos de fibra ótica, ao mesmo tempo muitos enfermos da cibernética se distanciam das relações de proximidade com os que estão em seu entorno social, afetivo e comunitário.
Voltando ao assunto proposto por essa resenha, que é a relação do capital com a ética cristã, temos que o capital globalizado estimulado pela propaganda consumista varre a identidade cultural, de forma que antigas referências, como a família, a religião ou a comunidade são afetadas e deixam de cumprir as funções de outrora.
Em muitos lares a religião se tornou objeto de consumo, grande parte da população ligado a uma
É urgente a necessidade de retornarmos as raízes de nossa fé ortodoxa, que pode neste nosso tempo oferecer pistas de reflexão a partir de uma ótica inclusivista, solidária resgatando a partilha vivida na koinonia apostólica de Jerusalém, com o intento de reconstruir um mundo novo, que se baseie numa economia alternativa que visa recuperar a atual economia, que como o próprio nome diz, “é o cuidado da casa que nos pertence”. Esta deve ser colocada a serviço da necessidade de todos, focando o desenvolvimento político, socioeconômico e cultural a partir do povo e para o povo, que é o maior capital sócio-cultural da humanidade e real sujeito ativo de uma globalização pro populo.
in Ódos - Caminho para a Santificação
Padre Daniel de Oliveira Pinheiro
Igreja Ortodoxa Ucraniana
Patriarcado Ecumênico de Constantinopla
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