Psaltis - A Rádio que toca a Ortodoxia

sábado, 9 de junho de 2012

O que é um padre?


Domingos Zamagna
jornalista e professor de Filosofia

És católico ou ortodoxo? Então tu me entendes. Mesmo se ainda não foras católico, mas simplesmente cristão ou religioso, tu me entenderias também. Aliás, basta que sejas um ser humano - nem precisas ser dos melhores - e tenho certeza que me entenderás. Por quê? Porque quero falar-te de um homem igual a ti, absolutamente igual a ti: o padre! A ele, porém, Deus confiou uma missão que o torna um homem de especial significação.

Onde encontrá-lo? Na rua, cada vez menos descobres a sua identidade. Uma pequena cruz, um colarinho branco, num terno nem sempre bem cortado, enfim um discreto sinal pelo qual reconheces que ali vai alguém em que podes confiar, haja o que houver. Ele foi criteriosamente talhado para isso. Para estar próximo de quem dele necessitar.

Houve um tempo em que o padre era reconhecido por suas vestes extravagantes, certas vezes até suntuosas. Esse tempo ficou para trás. Depois do aparecimento de algumas vanguardas estéticas (grunge, beat, punk, gótico, tropicalismo etc.), a extravagância foi sobejamente homogeneizada. O que conta é que os padres se deixam cada vez mais impressionar pela frase de Jesus: "os que vestem roupas empoladas vivem nos palácios dos reis" (Mt 11,8). Para quem os conhece de fato, não pesa mais sobre eles a acusação de outrora, de que estavam mais próximos dos poderosos. Dependendo do conhecimento que tens da cidade em que vives, tu te surpreenderias ao ver alguns deles vestidos como o povo de rua, debaixo de pontes, em favelas e cortiços ? Não é o hábito que faz o monge!

Onde ele reside? Um padre maravilhoso, Vicente de Paulo, transmitiu no século XVI estes ensinamentos cujo espírito tem servido de orientação para algumas práticas eclesiais nos dias atuais: "Tereis por mosteiros as casas do pobres; por cela, vosso quarto de aluguel; por capela, a igreja paroquial; por claustro, as ruas da cidade; por clausura, a obediência; por véu, a santa modéstia." É da mais genuína tradição da Igreja a opção preferencial pelos pobres; nossos padres não só assumem a causa dos pobres, eles próprios são pobres. Mas não se trata de uma pobreza ostensiva. Num mundo em que o que conta são os bens materiais, o padre tem - quando muito - um apartamento modesto, um carro comum. Dentro de casa, a TV só é ligada de caso pensado. Atualmente até as TVs religiosas foram contaminadas por algumas tolices; por isso devem ser vistas com parcimônia e suspicácia. Na época da estridência, o padre é um cultor do silêncio. Sua geladeira não estoca iguarias. Bebidas? Só as consentidas por sóbrias festas no recesso de um lar.

Que mais tem em sua casa? Um computador, certamente, porque é um homem de comunicação. O diálogo direto é imprescindível para o exercício do seu ministério, mas não pode abrir mão desse instrumento moderno para se comunicar com o bairro, com a cidade, com o país, com o mundo. Sua visão nunca é pequena, é cada vez mais ampla. O povo às vezes se espanta, porque a casa do padre tem também livros, muitos livros. Gastou boa parte da vida estudando. Mergulhou na história, filosofia, sociologia, psicologia, antropologia, para conhecer a natureza dos povos. Como conhecer a Deus sem conhecer o que é o ser humano, imagem de Deus?

Aprendeu línguas, com especial atenção para o hebraico e o grego, às vezes com dificuldades - quem sabe até com heroísmo! - para estudar os originais do Antigo e do Novo Testamento, pois ali estão os fundamentos da Teologia e da Espiritualidade, nas quais se debruçou por cinco anos na faculdade. Deve dominar muito bem o nosso idioma. Por uma razão muito simples: se ele não souber falar, ou escrever, como poderá ser entendido ?

Conheceu todas as tradições e correntes de pensamento do Cristianismo. Certamente afeiçoou-se mais com esse ou aquele pensador, o que lhe deu um feitio mais ou menos conservador ou renovador. Em todo caso, tudo o que faz é fruto de idéias amadurecidas, provadas, alicerçadas em valores. Porque não é um homem da moda, dos que falam somente para agradar platéias, baliza a sua vida pela oração dentro e fora do templo, pelos ensinamentos da Sagrada Escritura, dos Santos Padres, dos Concílios. Obviamente, "mantendo-lhes o nervo e a ságoma", como dizia Murilo Mendes.

Tu te dás conta de quão difícil é, para um padre, cultivar a imperativa indignação profética diante da injustiça e ao mesmo tempo ser um artesão da paz e um arauto da misericórdia do Pai? De fato, o povo espera que o padre seja um irmão e um pai, que saiba administrar bem a sua comunidade, mas sem ser um soba ou um beleguim.

Talvez tu saibas que os padres, nos primeiros séculos da era cristã, podiam constituir família. Hoje isso só é possível na Ortodoxia, onde a Igreja Ortodoxa guardou a tradição de ordenar padres a homens casados. O que provavelmente ouves falar com freqüência, ou lês sobretudo nos jornais (ou livros superficiais) é uma lista de motivos que nunca coincidem com a verdadeira razão de a Igreja Romana assim como no monaquismo ortodoxo exigir de seus padres a opção pela vida celibatária. Não se trata de conveniência, muito menos de menosprezo pelo casamento. Já leste, certamente, que Pedro, foi casado (Mt 8,14). A prática e sobretudo a qualidade da evangelização, contudo, passou a exigir dos missionários uma identificação cada vez maior com um Cristo tão despojado que renunciou até à constituição de uma família, para a consagração total ao Reino e ao serviço ao povo. Nunca duvides da integridade de cada sacerdote, aliás essa é até uma exigência para ser ordenado. Não aceites que te imponham uma visão distorcida sobre uma realidade que traz a marca do sobrenatural. Se souberes o que é a renúncia a um amor individual para abrir-se - generosa, equilibrada e alegremente - para um amor universal, unicamente por causa do Evangelho, saberás apreciar a razão pela qual a Igreja - a despeito de todas as dificuldades e até das defecções - insiste para que o padre canalize todas as energias da sua vida intelectual e afetiva para o serviço do Reino de Deus, do qual a Igreja é sinal na vida presente.

Se tens fome desse Reino, se não te deixas bafejar ou demover por qualquer religião recém inventada, se deixas que Deus inspire verdadeiramente a tua vida, então sabes onde encontrar quem foi escolhido pelo nosso Salvador para estar a teu serviço na fé. Do padre ouvirás, com reverência e competência, a pregação da Palavra imorredoura, dele receberás na fronte a água do renascimento, a unção do Espírito que te prepara para o combate espiritual, o perdão de tudo o que te afasta do bem, a bênção sobre o teu compromisso de amor por um(a) companheiro(a) de vida e a educação de teus filhos, o viático para enfrentares a derradeira luta, antes que entres no gáudio do teu Senhor.

E se, no decurso dessa vida de alegrias e esperanças, mas onde não há homem que desconheça a dimensão da cruz, necessitares de um alimento que te robusteça a caminhada, saiba que Nosso Senhor concedeu a alguns, alguns que são como nós, saídos do meio do povo, mas aos quais reservou um privilégio jamais conferido sequer aos anjos do céu, é das mãos do padre que receberás o pão e o vinho que selam uma aliança nova, tornados Corpo e Sangue de Cristo, pelos quais antegozas a alegria de uma união que jamais terá fim.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A Luz da Ortodoxia
- Porque a Luz da Ortodoxia não se deixa macular, você pergunta? Porque é o próprio Deus que a mantém na verdade, é o próprio Cristo que se sacrificou pela sua inexorável pureza, é o próprio Espírito Santo que nela brilha e santifica todos os pobres homens, decaídos e desesperados. Nada há de absoluto e intransponível que não venha do alto, e é do Altíssimo que descem todas as salutares bênçãos que cobrem a Igreja e seus fieis! Como sugerir que essa Luz possa ser maculada?

- Deus é fato muito bom, abouna. Mas e os homens decaídos? Não trazem eles vergonha e miséria à Santa Igreja? Continua ela sendo santa com toda a fornicação, imoralidade, perjúrio, calúnia, violência e tirania que são derramadas até pelos iluminados pelo batismo?

- Mas é claro, meu filho querido. Todas as maldades são obra do maligno, maligno que habita em nós, que perturba nossos sentidos e emporcalha nossas almas, tudo é obra da vontade que se quebra como onda sobre a rocha da fé que pede muito sacrifício. O Enganador nos tenta no íntimo e nos arrasta aos abismos mais escuros, tudo que ele e seus anjos demoníacos intentam fazer é nos derrubar, nos arrastar ás paixões vis e aos prazeres obscuros, tudo para nos arrasar a alma, nos roubar a Luz divina que nos transforma, purifica, eleva e deifica.

Mas a Luz, filhinho meu, permanece intacta, ela continua a fluir na Igreja como o sangue pelo corpo, a vida pelos veios do mundo. A Igreja permanece santa e imaculada graças à Luz derramada sobre ela, graças ao sangue expelido, graças ao Amor feitor carne. O Cristo é a garantia da santidade da Igreja em meio às tempestades da vida. Queres melhor garantia, filho meu?

Não te enganas, filhinho. Não deixas as novas doutrinas e desconfianças desse mundo perverso taparem teus olhos, te enganarem com falsas promessas de felicidade terrena, prazeres breves e maravilhosos, não caias nas teias dos filósofos das mentiras, dos arquitetos de sonhos mundanos. Não! Confia na Igreja, segue o Cristom obedece o Pai, e banhe-se na Luz do Espírito! Leia os santos Padres, receba os santíssimos Dons, ore com frequência e ame o Senhor com todo o teu amor e entendimento. Creia, perdoe, espere, ame, ame, ame, e ame mais!!!

- Perdoa, abouna, perdoa minha falta de fé. Ora pela minha alma com teus puros lábios!

- Sou um poço de pecados, meu filho. Mas orarei por ti, que és um filho muito amado e por quem choro quando pecas. Reza tu por mim também, eu, que sou um pecador miserável!

- Oras por mim, abouna, que meus pecados são incontáveis!

- Tu és responsável pelos pecados do mundo inteiro! Oras por mim e por todos, para que Ele seja tudo em todos e vejamos a Luz da vida eterna.

-Amin! Amin! Amin!
Caio Alves Cordeiro
Paroquiano da Igreja São Jorge de Santos
 

quinta-feira, 26 de abril de 2012

A Questão do Filioque - Padre John Meyendorff

tradução: Pe. Gregório Teodoro 
Catedral Metropolitana Ortodoxa Antioquina de São Paulo 
* para reproduzir e/ou utilizar o texto, favor dar os créditos de autoria e tradução
            
"Os bizantinos consideravam a questão do Filioque como o ponto central de divergência com Roma. Em sua opinião, a Igreja latina, ao aceitar o Credo com uma interpolação, não somente se opunha ao texto adotado pelos Concílios Ecumênicos como expressão da fé cristã universal, mas também atribuía autoridade dogmática a uma falsa concepção da Trindade.

            Entre os bizantinos, mesmo entre os que poderiam ser considerados mais moderados, como, por exemplo, o Patriarca Pedro de Antioquia, que se opôs sistematicamente ao antilatinismo de Miguel Cerulário, Patriarca de Constantinopla, se sustentava que essa interpolação era não somente “um mal, mas o mais pernicioso de todos os males.”

De maneira geral os bizantinos não tinham perfeito conhecimento das complicadas circunstâncias históricas que levaram à aceitação do Filioque no Ocidente, como o fato de que a interpolação desse termo no Credo se produziu na Espanha, no século VI, como forma de reforçar a postura antiariana da Igreja espanhola; a difusão do Credo com a interpolação em todo o império franco; o uso que Carlos Magno fez da interpolação em sua polêmica antigrega; a referência que alguns teólogos francos fizeram posteriormente à obra de Agostinho “De Trinitate”, para justificar a interpolação (embora o próprio Agostinho nunca a tenha pleiteado); e, finalmente, a aceitação do Filioque em Roma, provavelmente em 1.014.

            Fócio foi o primeiro a apresentar, da parte grega, em 866, uma exaustiva refutação do termo interpolado, classificando-o não somente como uma alteração textual introduzida no Ocidente por alguns “francos bárbaros”, mas como uma arma de propaganda antibizantina entre os vizinhos búlgaros, recentemente convertidos ao Cristianismo pelos gregos, fato pelo qual o próprio Patriarca de Constantinopla se considerava responsável.

            Em sua encíclica aos Patriarcas orientais, em 866, Fócio considera o Filioque como “a coroa de todos os males” introduzidos na Bulgária pelos missionários francos. Já se viu que a principal objeção teológica à interpolação era que a mesma comportava a confusão entre as características hipostáticas  das três pessoas da Trindade, resultando numa nova forma de modalismo ou de semi-sabelianismo.

            Depois dos Concílios dos anos 879-880, que ratificou solenemente o texto original do Credo e condenou formalmente todo aquele que se atrevesse a “compor outra profissão de fé” ou a corromper o Credo com “palavras ilegítimas, adições ou subtrações”, Fócio se considerou plenamente satisfeito. Para celebrar o que ele entendia como a vitória final da Ortodoxia, escreveu uma minuciosa refutação da doutrina sobre a “dupla processão” – sua célebre “Mistagogia” -, na qual, inclusive, chegou a felicitar o Papa JoãoVIII por ter tornado possível esse triunfo.

            Depois da adoção definitiva do Filioque em Roma e em todo o Ocidente, o problema passou a ser alvo de disputas em qualquer encontro, polêmico ou amistoso, entre gregos e latinos. A literatura bizantina sobre o tema é extremamente volumosa e o mesmo foi estudado em algumas obras de referência, como nas monografias de Martin Jugie, Hans-Georg Beck e outros.

            Os argumentos de Fócio, de que “o Filioque é uma interpolação ilegítima”, destrói a ‘monarquia do Pai’” e “relativiza a realidade da existência pessoal ou hipostática no seio da Trindade”, constituíam o núcleo da discussão. Porém, em muitas ocasiões, a controvérsia ficou reduzida a uma interminável enumeração, de ambos os lados, latinos e gregos, de textos patrísticos favoráveis a suas respectivas posturas. Porém, em muitas ocasiões, a controvérsia ficou reduzida a uma interminável enumeração, de ambas as partes, de textos patrísticos favoráveis a suas respectivas posturas.

            As controvérsias sobre as antigas autoridades se centravam frequentemente em textos daqueles santos Padres – especialmente Atanásio, Cirilo de Alexandria e Epifânio de Chipre – cujo principal interesse residia na polêmica antiariana ou antinestoriana, ou seja, na ratificação da identidade de Cristo como eterno e o preexistente Logos divino.

            Com referência ao Espírito Santo se empregavam, inevitavelmente, expressões semelhantes às adotadas na Espanha, no século VI, onde a interpolação havia aparecido pela primeira vez. De determinados textos bíblicos, como João 20,22 (“Em seguida soprou sobre eles e disse: ‘Recebei o Espírito Santo’”) se aduzia a prova da divindade de Cristo: se o “Espírito de Deus” é também o “Espírito de Cristo” (Romanos 8,9), não há dúvida de que Cristo é “consubstancial” a Deus. Nesse mesmo sentido se pode dizer que o Espírito Santo é o espírito “próprio” do Filho, e, inclusive, que o Espírito “procede substancialmente de ambos”, Pai e Filho.

            Em seu comentário a estes textos, no qual reconhecia sua correspondência com o pensamento patrístico latino, Máximo, o Confessor, os interpreta corretamente no sentido não de que “o Filho é a origem do Espírito”, pois “somente o Pai é a origem do Filho e do Espírito Santo”, mas de que “o Espírito procede ‘através’ do Filho, expressando, assim, a unidade de natureza”. Em outras palavras, da atividade do espírito no mundo depois da Encarnação se pode deduzir a consubstancialidade das três pessoas da Trindade, porém não se pode inferir nenhuma causalidade na eterna relação pessoal entre o Filho e o Espírito.

            No entanto, alguns teólogos denominados “latinófronos” (“de mentalidade latina”) pelos bizantinos, especialmente João Beccos (1275-1282), entronizado como Patriarca pelo imperador Miguel VIII Paleólogo, com a missão explícita de promover a “União de Lyon” (1274), se esforçaram por encontrar textos patrísticos gregos sobre a processão do espírito “através do Filho”, em favor do Filioque latino. Segundo os “latinófronos” tanto “do Filho” como “através do Filho” eram expressões legítimas da mesma fé trinitária.

            A réplica habitual da parte ortodoxa consistia em demonstrar que na Teologia bíblica e patrística a processão “do” ou “através do” Filho se refere aos carismas (“charismata”) do Espírito Santo e não à sua própria existência hipostática. De fato, pneuma pode se referir tanto ao que doa como ao dom em si mesmo, e, em último caso, a processão do Espírito “do” ou “através do” Filho – através do Cristo histórico, do Filho feito homem – ocorre no tempo, e, portanto, não é equiparável à processão eterna do Espírito da hipóstase do Pai, única “fonte da divindade.”

            No entanto, os principais teólogos ortodoxos dos séculos XIII e XIV taxaram de insuficiente essa réplica. Gregório de Chipre, sucessor de Beccos no Patriarcado (1283-1289) e Grão-Chanceler do Concílio (1285), que rejeitou oficialmente a “União de Lyon”, procurou fazer com que a assembleia aprovasse um texto que, ao invés de condenar o Filioque, reconhecesse uma “eterna manifestação” do Espírito através do Filho. O que serviu de contexto à postura conciliar foi a noção de que os carismas do Espírito não são realidades temporais criadas, mas a eterna graça incriada, ou “energia” de Deus. A essa vida divina incriada o homem só tem acesso no corpo do Logos feito homem. Por conseguinte, a graça do Espírito não nos chega “por meio” ou “do” Filho; o que nos é concedido não é a própria hipóstase do espírito nem uma graça temporal criada, mas sim a “manifestação” externa de Deus, distinta de sua pessoa e de sua essência.

            Este argumento foi usado também o grande teólogo ortodoxo do século XIV Gregório Palamás,o qual, como Gregório de Chipre, reconhecia formalmente que, enquanto energia, “o Espírito Santo é o Espírito de Cristo, que procede dele; Cristo o envia com seu sopro e o manifesta, porém, em seu próprio ser e em sua existência, é o Espírito de Cristo, mas não procede de Cristo, e sim do Pai.”

            Com o passar do tempo se tornou cada vez mais evidente que a disputa sobre o Filioque não era puramente uma discussão verbal, pois havia um sentido no qual as duas partes estavam de acordo em afirmar que o Espírito procede “do Filho”, mas era um debate sobre se a existência hipostática das pessoas da Trindade poderia se reduzir a suas relações internas, como admitia o Ocidente após Agostinho, ou se a experiência primária do cristão era de uma Trindade de pessoas, cuja existência pessoal não se poderia reduzir à sua essência comum.

            O problema era o seguinte: a “tripersonalidade” ou consubstancialidade foi o conteúdo primário e essencial da experiência religiosa cristã? Porém, para situar o debate nesse nível, e empreender um verdadeiro diálogo sobre o núcleo do problema, as duas partes precisariam entender plenamente a postura uma da outra; infelizmente isso nunca aconteceu. Inclusive no Concílio de Florença, no qual houve inumeráveis confrontações sobre a questão do Filioque, a discussão ficou centralizada nos intentos de adaptar as duas formulações, a grega e a latina. Como decisão final o Concílio adotou uma definição da Trindade basicamente agostiniana, uma vez que afirmava que as formulação grega não estava em contradição com ela, mas, naturalmente, essa medida não foi a solução do problema fundamental."


Consagração do Santo Miron (Crisma) 2012 - Patriarcado Ecumênico de Constantinopla